Netflix e a cultura da responsabilidade

Cesar_Bullara2A Netflix, fundada em 1997, surgiu como um serviço de entrega de DVDs pelo correio e hoje é um provedor global de filmes e séries de televisão via streaming.

Para sobreviver, teve que enfrentar inicialmente a então gigante Blockbusterno mercado de aluguel e distribuição de filmes, e mais posteriormente toda a indústria de entretenimento, capitaneada pelas grandes redes de TV americanas e a indústria do cinema de Hollywood. A identificação de ameaças e oportunidades foram a ocasião de reinventar o seu modelo de negócio, tornando-o fortemente competitivo.

No entanto, a razão para um sucesso tão estrondoso não se explica somente pelo modelo de negócio desenvolvido. Nesse contexto, a criatividade e a capacidade de inovação sempre foram os melhores atributos da Netflix. Reed Hastings, desde o início, estava convencido de que a empresa somente iria adiante se pudesse contar com profissionais talentosos e que realmente estivessem comprometidos com fazer a diferença.

Talento e comprometimento são dois requisitos básicos, necessários e indissociáveis para a construção de uma grande organização. No caso da Netflix, era preciso não somente atrair as pessoas certas, mas colocá-las no lugar certo, dar-lhes condições para que se fossem continuamente desafiadas e quisessem dar o máximo de si.

A solução encontrada por Reed se materializou no estabelecimento da cultura da liberdade e responsabilidade, tendo como alicerces um estilo de gestão extremamente delegador, políticas e práticas de RH adequadas à sua realidade e uma estrutura muito enxuta.

Esses pilares sustentaram o crescimento da empresa ao longo dos anos. Permitiram que ela continuasse sendo criativa, mesmo tendo se tornado grande, vencendo a tendência das organizações de se tornarem lentas e burocráticas. Orientaram o seu crescimento de modo ordenado, impedindo o descontrole e a perda do sentido de propósito. Evitaram que o excesso de processos inviabilizasse a inovação e a flexibilidade para adaptar-se a um mercado em evolução constante.

Sendo contrário ao micromanagement, Hastings percebia claramente seus efeitos limitantes. Acreditava firmemente na delegação como meio indispensável para criar ownership, desde que cada gestor mantivesse alto o nível de exigência. Sem dúvida, a combinação entre autonomia e alta performance tem sido um dos fatores-chave na gestão da empresa para a obtenção dos excepcionais resultados dos últimos anos.

Ao invés de multiplicar regras e processos, desde o início, optou por estabelecer uma política de seleção a fim de garantir a escolha do talento que necessita para tocar o negócio em cada momento. Através de um agressivo sistema de incentivos, recompensa generosamente as boas ideias e confere responsabilidades às pessoas certas. Feedbacks frequentes (olho no olho) garantem que as correções de rota sejam feitas no momento oportuno, dando grande agilidade ao negócio e assegurando que os melhores sejam promovidos e os de baixa performance desligados, criando um ciclo virtuoso que fortalece a sua cultura.

Toda essa sistemática tem como objetivo contar com profissionais estrelas em todas as posições. Esse modelo é sustentável em toda a sua integridade? De fato, o turnover é alto e sabemos que a cultura Netflix não é para qualquer um. Profissionais muito competentes não se adaptam ao estilo de gestão promovido por Reed Hastings. A Netflix é uma empresa onde somente os mais resilientes sobrevivem. A pergunta que surge é: será este um modelo de gestão a ser copiado inteiramente?

Cesar Bullara, Chefe do Departamento de Gestão de Pessoas do ISE Business School.

A Arte da Negociação: encontrando a melhor alternativa

Prof Marcos CiteliDentre os vários conceitos que se conhece em negociação, nenhum é mais importante para definir a estratégia do que conhecer a Melhor Alternativa ao Acordo Negociado (MAAN) tanto para si próprio quanto para o outro lado. Mas o que exatamente significa MAAN, ou para ser mais prático, como conseguimos descobrir qual o nosso MAAN, e qual o MAAN da outra parte?

O MAAN, como o próprio nome diz, pode ser encontrado quando nos perguntamos o que faremos caso a negociação em curso não se conclua, isto é, das possíveis alternativas que temos, qual é a melhor? É a partir desta alternativa que poderemos construir algumas balizas da estratégia, como por exemplo qual seria o mínimo a ser alcançado na negociação em curso para valer a pena continuar, ou seja, qual o nosso preço de saída? Por incrível que pareça, é mais comum do que imaginamos que as pessoas saiam da negociação tendo fechado um acordo pior do que a alternativa que tinham!

Aqui vale lembrar que a nossa alternativa apenas nos dá o preço de saída da negociação, mas não deve ser o foco da nossa estratégia. Todo o esforço deve estar em buscar conhecer da melhor maneira possível o MAAN da outra parte, e procurar jogar próximo a ele. O louvável esforço de conhecer o nosso MAAN não pode nos obnubilar e criar uma âncora prejudicial perto do nosso preço de saída, pois a alternativa da outra parte pode estar muito longe da nossa, e haver um amplo espaço para negociação onde nós podemos ganhar um pedaço bem maior do bolo que se está procurando repartir, cujo tamanho costuma ser exatamente a diferença entre a nossa alternativa e a alternativa da outra parte.

Assim, embora com muito mais matizes do que temos espaço aqui para discutir, pode-se dizer que muito do esforço estratégico de avançar na negociação gira em torno de procurar esconder o nosso MAAN enquanto buscamos conhecer o MAAN da outra parte. Direta ou indiretamente, nenhuma pergunta é mais importante numa negociação do que a seguinte: qual é a sua melhor alternativa para o caso de não fecharmos um acordo entre nós? E como em toda negociação ocorre um jogo de ação e reação, esteja também preparado para receber a mesma pergunta!

Marcos Citeli é professor do Departamento de Contabilidade do ISE Business School

Dilemas da Inovação: desenvolver internamente ou adquirir externamente?

Ricardo EinselbergNa área de tecnologia da informação esta dúvida é conhecida como “make or buy dilemma” e já foi amplamente discutida nos ambientes acadêmicos e empresariais. O mesmo tipo de dilema aparece quando pensamos no desenvolvimento de inovações. Vale a pena desenvolver dentro da empresa ou ficar atento às oportunidades do mercado?

O investimento em pesquisa interna, seja básica ou aplicada, é uma aposta que pode, ou não, gerar resultados para a empresa que utiliza essa estratégia. A indústria farmacêutica é o exemplo mais comum. Para reduzir riscos e perdas é comum a utilização de consórcios, projetos compartilhados e investimentos cruzados. O funil de sucesso no caso da indústria farmacêutica aponta para um investimento da ordem das centenas de milhões de dólares, chegando até alguns bilhões de dólares, para cada nova droga lançada com sucesso.

As grandes empresas, além de apostarem no desenvolvimento interno, também estão constantemente monitorando e adquirindo empresas menores que desenvolveram alguma nova tecnologia. Os modelos não são necessariamente excludentes, mas requerem capital para sua realização.

O “corporate venturing” é uma alternativa que mescla um pouco dessas abordagens e, apesar de ainda concentrado em grandes empresas, pode sim ser aplicado por empresas menores. A estratégia é que as empresas fiquem atentas a projetos de start-ups que estejam ligados ao seu negócio e funcionem como investidores anjo e aceleradoras para estes projetos. Ao investir em ideias ainda embrionárias, mas com potencial, as empresas podem minimizar o investimento e conseguir agregar inovações aos seus portfólios de produtos e serviços.

As start-ups investidas ficam livres, recebendo suporte, para inovarem e proporem novas soluções para problemas enfrentados pela sua empresa investidora ou pelos seus clientes. Se o resultado aparecer, e tiverem sucesso, elas podem então ser incorporadas pelas suas “angel companies”.

É importante estar atento aos eventos de empreendedorismo da sua área de atuação e também aproximar-se de alguma rede ou instituição que promova e incentive o aparecimento de start-ups.

O ISE Business School criou um centro de inovação e empreendedorismo justamente com esse intuito. O EMPRESE procura fomentar o investimento em ideias empreendedoras, ao mesmo tempo oferecendo desenvolvimento humano e profissional tanto aos empreendedores como aos investidores.

Ricardo Engelbert é professor do Departamento de Empreendedorismo do ISE Business School

Sobre a desigualdade

Prof Marcos Citeli

Nos últimos meses assistimos a intensos debates políticos no país, motivados pela crise econômica que mexeu no bolso da maioria dos brasileiros. Dentre os muitos temas tratados, é recorrente ouvirmos falar do problema da desigualdade. Chama a atenção o fato de que, para a maioria das pessoas, quanto menor a desigualdade, melhor a situação geral. Acontece algo semelhante no tocante à discriminação, palavra que sempre aparece com uma conotação negativa, quando o mais correto seria matizar entre discriminação justa e injusta. Por exemplo, seria uma discriminação injusta rejeitar uma contratação para motorista de ônibus simplesmente por causa da cor de pele da pessoa, e seria uma discriminação justa recusar porque o candidato simplesmente não tem a habilitação correta exigida para este tipo de veículo.

Na mesma linha de raciocínio vem muito a calhar a distinção entre redução da desigualdade benigna e maligna feita pelo economista Branko Milanovic no livro Global Inequality, a New Approach for the Age of Globalization. Redução maligna seria por exemplo a provocada por uma epidemia, que, ao reduzir a população e consequentemente a mão de obra disponível, aumenta a renda diminuindo a desigualdade. Redução benigna seria aquela provocada, por exemplo, pela melhora na qualidade da educação da população.

Uma outra maneira de matizar o tema da desigualdade é pensar que comparações entre países pode ser muito enganadora. Países ricos podem ter desigualdade maior, mas no geral a população está numa situação econômico-financeira melhor do que a de países com baixa desigualdade, mas com todos muito pobres. Resumindo, cuidado quando ouvir a promessa de melhorar as condições de vida simplesmente acabando com a desigualdade, pois uma maneira de diminuir a desigualdade é empobrecer a todos ao mesmo tempo. Tendo em conta estas ideias podemos fazer uma discriminação justa entre as possíveis maneiras de reduzir as desigualdades.

Marcos Citeli é professor do Departamento de Contabilidade do ISE Business School

Taxa futura e expectativa do câmbio no futuro. A mesma coisa?

Prof. Oscar Simões

Onde estará o dólar em um mês? Basta olhar a cotação futura do dólar na BM&F Bovespa, certo? Errado!
Desculpem-me pelo jogo de palavras, mas o câmbio futuro, aquele negociado na BM&F Bovespa, não é a expectativa do dólar no futuro. Para esclarecer, vale definirmos brevemente o que é um contrato futuro de câmbio.

Um contrato futuro de câmbio é aquele no qual uma parte concorda em pagar uma quantia determinada de dólares à contraparte por uma taxa determinada/acordada no fechamento da operação. Se o dólar subir, a parte que vendeu pagará a diferença entre a taxa do dólar vigente no vencimento do contrato e a taxa acordada ao comprador. Se o dólar cair, é o inverso: a parte compradora irá pagar por aquela diferença ao vendedor.

Digamos que o vendedor do dólar seja um agente conservador, que não gosta de tomar riscos desnecessários. O que ele fará para se assegurar que terá os dólares para pagar ao comprador no dia do vencimento? A resposta mais óbvia seria comprá-los hoje e segurá-los até o vencimento. Essa estratégia conservadora traz um custo embutido. Vejamos por que.

A intenção do vendedor é ter os dólares no futuro para entregar ao comprador. Na estratégia conservadora, ele tem que comprar os dólares hoje e, por eles, pagar o valor da taxa de câmbio atual em reais. Assim, se a taxa de câmbio for de R$3,5 por cada dólar comprado, se o contrato for de USD10mil, ele precisará de R$ 35mil. Partindo do pressuposto que o vendedor não tem essa quantia, ele emprestará esses R$35mil às taxas vigentes no mercado, ou seja, algo próximo do CDI . Já com os reais em mãos, o vendedor vai até o mercado de câmbio e compra os USD10mil. Porém, ele não irá entregar esses dólares imediatamente ao comprador, fazendo-o somente no futuro. Assim, ele pode aplicar esses dólares até o vencimento, ganhando assim juros sob a aplicação em dólares durante o período do investimento. No dia do vencimento, a operação é liquidada. No mercado internacional, há a troca de principais, ou seja, o vendedor envia os USD10mil ao comprador e este, os reais ao vendedor. Com os reais em mãos, o vendedor liquida também o seu empréstimo em reais.
Porém, o leitor pode achar que há algo estranho nisso tudo. Quem emprestou os reais ao vendedor não cobrou juros? Onde foram parar os juros recebidos do depósito em dólar? E aí chegamos à pergunta fundamental: qual a taxa do contrato de câmbio futuro que o vendedor ofereceria ao comprador para que a operação fizesse sentido a ambos?

Resposta: exatamente aquela necessária para cobrir o custo que teve. Lembrem-se que o vendedor emprestou os reais às taxas vigentes no mercado local, CDI, e investiu os dólares às taxas de juros americanas . Assim, ele deveria cobrar do comprador os juros em reais e devolver a ele os juros em dólares. De maneira mais específica, o vendedor irá adicionar à taxa de câmbio do dia da contratação o custo de ter emprestado em reais e de estar investindo em dólares, basicamente o que chamamos de diferencial de juros. É exatamente essa a forma de se precificar um contrato futuro de moeda, no Brasil ou no exterior. Mas o que isso tem a ver com o problema da expectativa do dólar no futuro, que é o que queremos saber realmente?
Se a precificação de um contrato futuro se dá pelo diferencial de juros e sabendo que os juros brasileiros são maiores que os juros americanos, isto quer dizer que a taxa de câmbio futura no Brasil será sempre mais alta que a taxa do câmbio corrente (ou spot). Ou melhor, partindo da taxa de câmbio corrente, aquela que você vê estampada nos jornais, a única informação que o mercado de câmbio futuro de câmbio nos dá refere-se ao diferencial de juros entre as duas moedas (que é o custo do processo de arbitragem descrito acima). E isso, por sua vez, tem pouca relação com as expectativas sobre a taxa de câmbio spot em determinada data no futuro.

Em situações normais do ciclo econômico, onde se prevê, por exemplo, que a taxa de juros em reais irá subir, a expectativa do câmbio é de queda, pois uma taxa de juros local mais alta atrairia mais investidores ao país e isso faria com que a taxa de câmbio se apreciasse (caísse). Porém, esse aumento da taxa de juros em reais faz com que o diferencial de juros fique ainda maior, o que geraria uma taxa de câmbio futuro maior em relação à taxa corrente (spot), apesar de as expectativas serem de queda da taxa de câmbio no futuro.
A previsão da taxa de câmbio de curto prazo continua sendo objeto de estudo dos acadêmicos, mas infelizmente não existem modelos suficientemente robustos para prever onde o câmbio estará no curto prazo. A melhor previsão da taxa de câmbio de amanhã continua sendo a taxa de câmbio de hoje. Assim, não olhe para o mercado futuro como o previsor da taxa de câmbio no futuro. Além disso, não deixe de desconfiar de qualquer pessoa que lhe garanta que a taxa de câmbio estará num patamar específico no futuro. Se ele acertar, avise-o para ir imediatamente à lotérica mais próxima.

 

Oscar Simões é professor do Departamento de Direção Financeira do ISE Business School